Dr eu tenho 19 anos, quais são os livros que devo ler agora nesses ferias, que eu quero saber quais os melhores que você leu na sua vida que mais lhe ensinaram a entender as pessoas. Tipo os pais, os colegas os parentes e se possível as outras pessoas do mundo
Ah, caro(a) amigo(a), que pergunta instigante! Fiquei aqui no sitio, deitado na rede, vasculhando a memória, ordenando as leituras que mais “fizeram minha cabeça”, em termos de compreensão do comportamento humano. Sobretudo do ponto de vista das relações interpessoais, assim como do comportamento coletivo. Vamos lá:
1. IRMÃOS KARAMAZOV, do grandioso F. Dostoiévski: esse cabra é campeão, pai de uma obra fabulosa. Desejos, culpas e ódios familiares girando em torno de um parricídio, tendo por foco a reflexão de se é possível ser íntegro, correto, num mundo cercado por maldades, sem crenças morais. Durante a leitura o autor lhe conduzirá através de um emaranhado de experiências emocionais e filosóficas, pelo labirinto dos sentimentos e da complexidade do comportamento humano, descobrindo que ninguém é completamente “bom” nem completamente “mau”. A leitura de Irmãos Karamázov nos ensinou que não existem resposta fáceis para as grandes questões e que o comportamento humano é um campo de tensões permanentes entre liberdade e medo, razão e paixão, fé e desespero.
2. DOM QUIXOTE DE LA MANCHA, M. de Cervantes: numa época em que qualquer critica ou ironia podia resultar em condenação à fogueira pelos tenebrosos tribunais da Inquisição, eis que surge o livro que se tornaria um sucesso universal (o livro mais impresso de todos os tempos, depois da Bíblia), Também pudera, alí estão as mais sutis das ironias metafóricas, espelhando as ilusões e as contradições humanas, num texto que há 4 séculos faz o deleite de todo e qualquer leitor.
3. VIGIAR E PUNIR, M. Foucault: deu um nó em minha cabeça, ao me permitir entender o que vêm a ser punição, poder e liberdade na sociedade ocidental moderna. Um texto denso, mas muito envolvente.
4. O ALIENISTA, J.M. Machado de Assis: até o quarto ano do curso de medicina eu pensava em me tornar psiquiatra. Depois que li esse incrível romance a fronteira entre lucidez e loucura, que para mim era até então muito nítida, se apagou para sempre. E me dei conta da confusão que o poder estabelece na mente daquele que lidera pessoas, levando-o com enorme facilidade ao fascínio pela tirania.
5. BABITT, S. Lewis: uma obra despretenciosa, mas fascinante, que aponta de modo cáustico, incomodo, absurdamente irônico, que o dilema dos tempos atuais não é a tragédia dos costumes ou o risco das crises econômicas. O grande dilema ocidental é a mediocridade.
6. METAMORFOSE, F. Kafka: “… Após uma noite de sonos agitados Gregor Sansa acordou e viu-se transformado numa enorme barata…” Nunca se viu ou verá um romance com abertura tão impactante. E assim seguirá o suspense, até o terrível desenlace final. Nesse texto inesquecível Gregor Samsa é uma alegoria do ser humano, sendo amado enquanto útil. Seu valor, dentro da família, resulta do fato de trabalhar, pagar dívidas, mantendo pais e irmã. Esse “amor” é, na verdade, dependência disfarçada de afeto.
Quando ele adoece (a “metamorfose” é, simbolicamente, uma doença incapacitante) a gratidão desaparece, a lealdade se dissolve e o cuidado vira repulsa. Uma leitura indispensável. Depois que li esse livro, decidi jamais me tornar um estorvo para a família: quando me surgir uma enfermidade grave, mergulharei na janela mais próxima. Abraçado com um desses livros.
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